Vizinhos do Rei à mesa, Odivelas conta uma história nova

Setembro à mesa e ao pôr do sol no The Lince Santa Clara
4 de Setembro, 2026

Vizinhos do Rei à mesa, Odivelas conta uma história nova

 

No Largo D. Dinis, diante do antigo mosteiro, há um projeto que quer devolver tempo à mesa e Odivelas ao prato. Estivemos na apresentação da nova fase do Vizinhos do Rei, entre petiscos, cogumelos cultivados a partir de borras de café, Marmelada Branca e histórias que atravessam gerações. O Vizinhos do Rei apresenta-se pela carta, mas começa a revelar-se ainda antes de chegar o primeiro prato.

A esplanada ocupa um dos lugares mais emblemáticos da cidade, foi ali que conhecemos esta nova etapa do projeto, numa tarde de apresentação descontraída, entre conversa, pratos a chegar à mesa e muitas histórias sobre a casa e sobre Odivelas. Uma delas ajuda a perceber rapidamente aquilo que os responsáveis querem que este restaurante seja.

No outro dia”, contou-nos a equipa, “um cliente veio almoçar e acabou por ficar por ali. A tarde avançou e, antes de partir, ainda pediu um prego”. A história foi contada entre sorrisos, para explicar que aqui não há uma fronteira rígida entre almoço, tarde e jantar. A ideia é simples, pode vir-se para almoçar, para petiscar, beber qualquer coisa ou simplesmente ficar mais um pouco.

O projeto nasceu da vontade de criar em Odivelas uma casa de petiscos com mais atenção ao produto, ao serviço e ao conforto, sem apagar aquilo que já existia. Os responsáveis conhecem bem a memória daquele espaço. Falam das décadas em que ali se serviram refeições, se beberam cervejas e se comeram caracóis. Recordam histórias passadas entre gerações e um restaurante que, de uma maneira ou de outra, sempre fez parte do quotidiano daquela zona da cidade.

Queremos fazer uma coisa diferente para Odivelas”, ouvimos durante a apresentação, “Diferente, mas sem perder as raízes. Mais cuidada, sem se tornar distante”. Esse equilíbrio entre tradição e renovação está presente em toda a ideia do Vizinhos do Rei. A cozinha continua a falar português, mas com mais atenção à origem dos ingredientes, aos produtores da região e à própria história gastronómica de Odivelas.

Um dos exemplos mais curiosos chega através dos cogumelos usados na ementa. São produzidos em Odivelas num projeto assente numa lógica de economia circular, em que borras de café são reaproveitadas para criar substrato para o cultivo dos cogumelos. O Vizinhos do Rei quer levar essa relação ainda mais longe. O café é servido no restaurante, as borras são guardadas e podem voltar ao produtor. Aquilo que seria um resíduo regressa, mais tarde, transformado em alimento. É uma história que começa numa chávena de café e pode acabar num prato de cogumelos.

A Marmelada Branca surge naturalmente na conversa e faz parte dos sabores que a equipa quer recuperar e trazer para uma linguagem mais atual, sem perder a ligação à herança conventual. Na carta, aparece num cheesecake de Marmelada Branca de Odivelas, uma sobremesa que acabou por ser uma das surpresas da tarde. Antes de a provarmos, alguém da equipa deixou o aviso, com um sorriso:“É uma bomba de sabor.”-Claro que tivemos de confirmar.

E a verdade é que são precisamente estes pequenos gestos que podem ajudar a dar personalidade à casa, não usar Odivelas apenas como cenário, mas trazer os produtos e as histórias do concelho para a mesa.

A carta acompanha esta ideia de uma casa onde se pode entrar a diferentes horas e por diferentes motivos. Ao almoço, há propostas mais compostas, com pratos de carne e peixe. Depois, a mesa pode passar naturalmente para um registo de petiscos. Pica-pau, camarão e outros sabores bem conhecidos da cozinha portuguesa permitem ir pedindo sem transformar cada visita numa refeição demasiado formal. Ao jantar, surgem pratos mais estruturados. Entre os que nos foram apresentados está a bochecha de porco, cozinhada lentamente, com sabores mais intensos e confortáveis, e o polvo, para quem prefere ficar pelos sabores do mar.

Uma das histórias que os sócios gostam de contar começa numa parede da sala ou, mais precisamente, numa saliência junto ao fundo do espaço. Segundo uma memória que foi passando localmente, poderia ter existido naquele ponto uma passagem relacionada com o antigo convento. E, inevitavelmente, a história acaba por cruzar-se com D. João V e Madre Paula.

É difícil saber onde termina o documento histórico e começa a tradição oral acumulada ao longo dos anos. A própria equipa apresenta a história dessa forma, mais como uma memória do lugar do que como uma certeza histórica. E talvez nem seja preciso mais do que isso. A graça está também em perceber que o restaurante não quer apenas estar em frente ao património, quer fazer parte da experiência de o descobrir.

É quando os sócios começam a falar da cidade que se percebe que este projeto vai além de abrir mais um restaurante. Todos têm uma relação antiga com Odivelas. Falam de histórias de infância, de batizados, de fotografias de família, das escolas onde andaram, dos primeiros negócios e de pessoas que conhecem há décadas. Há emoção quando falam deste pedaço da cidade, mas também alguma frustração. Sentem que o património local continua pouco conhecido fora do concelho e que muitas pessoas passam por Odivelas sem perceber tudo o que existe concentrado em redor daquele largo.

Daí nascer também outra ambição, aproximar gastronomia e património. Visitar o mosteiro, conhecer melhor a história de D. Dinis, descobrir a tradição conventual e depois sentar-se à mesa para provar sabores relacionados com o território. Talvez uma das coisas mais interessantes no Vizinhos do Rei seja precisamente o facto de ninguém ter tentado convencer-nos de que está tudo fechado e terminado. Não está. A equipa fala de aprendizagem, de ajustes e de uma casa que ainda está a encontrar a sua maturidade.

A carta deverá continuar a evoluir, e a intenção é trazer mais produtos locais ao longo do ano, acompanhando aquilo que fizer sentido em cada época. A esplanada tem uma presença forte nos dias quentes, enquanto os meses frios obrigarão naturalmente a outras soluções. Acima de tudo, existe vontade de encontrar o tom certo.

E talvez seja essa a melhor definição deste Vizinhos do Rei que agora começa uma nova fase- uma casa onde se pode entrar para comer e acabar por ficar mais um pouco, simplesmente porque se está bem.

Artigo por Carla Silva

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