


São estas refeições que permanecem consigo muito depois da última garfada, tanto no paladar como no seu coração graças ao propósito.
No próximo dia 1 de abril, o Touta, em Lisboa, propõe precisamente isso, uma noite em que a cozinha se transforma em gesto de cuidado e em resposta concreta a uma realidade que continua a marcar o Líbano.
Em parceria com a Caram Portugal e com o apoio da organização libanesa Beit el Baraka, o restaurante promove um jantar de angariação de fundos com o propósito de apoiar famílias afetadas pela guerra no Líbano. Mais do que um evento, esta iniciativa nasce de uma ligação íntima ao país, à comunidade e à urgência de não ficar indiferente.
Por detrás desta noite estão Cynthia Bitar e Rita Abou Ghazale, duas mulheres para quem esta causa é pessoal. No caso de Cynthia Bitar, essa dimensão humana cruza-se com um percurso sólido e respeitado na alta gastronomia. Proprietária e chef executiva da Nazira Catering, uma das mais reconhecidas empresas de catering do Líbano e da região MENA, Cynthia traz consigo mais de 27 anos de experiência, uma formação em Gestão e Artes Culinárias no Instituto Paul Bocuse, em Lyon, e um percurso que inclui passagens por casas de referência como a Fauchon e trabalho ao lado de Emile Cauvière, MOF e campeão mundial de pastelaria.
Membro da Académie Nationale de Cuisine e cofundadora dos Disciples Escoffier Liban, participou em eventos como o Festival des Étoiles de Mougins, a competição Bocuse d’Or e o Salon des Métiers de Bouche. Em 2018, foi distinguida com o prémio “L’Esprit Entrepreneur”, na categoria Arts Culinaires International, atribuído pela Bocuse & Co., sob o patronato do chef Yannick Alléno. Em 2024, elegeu Portugal para abrir o Touta, restaurante onde tem vindo a dar nova expressão à cozinha libanesa, cruzando a sua herança cultural com alguns dos melhores ingredientes portugueses. Desde a abertura, o espaço afirmou-se rapidamente em Lisboa e foi reconhecido pelo TheFork entre os melhores restaurantes em Portugal.
É essa visão, simultaneamente técnica e afetiva, que chega agora a este jantar solidário. “Cozinhar é, para mim, um ato de cuidado”, sublinha Cynthia Bitar, numa frase que traduz exatamente o espírito da noite. O menu foi concebido como uma viagem entre o Líbano e Portugal, unindo produtos, memórias e linguagens culinárias num registo muito próprio. À mesa chegarão propostas como hommos com pinhões e azeite infusionado com sujuk, croquetes de batata com carne e especiarias, kafta, lula dos Açores à Provençal e shawarma roll de porco preto alentejano em brioche artesanal. No final, a sobremesa mhalbieh com flor de laranjeira, pistácio e kadaïfi, fecha a refeição com delicadeza e identidade merecida.
O jantar tem o valor de 65 euros por pessoa. Deste montante, 15 euros revertem diretamente para a Caram Portugal e, com o contributo adicional do Touta, a doação final sobe para 20 euros por participante. O valor angariado ajudará também a financiar projetos da Beit el Baraka no terreno.
A Caram Portugal é uma associação sem fins lucrativos que trabalha para aproximar as comunidades libanesas e portuguesas através de iniciativas sociais, culturais e solidárias. Para além da organização de encontros comunitários e eventos de angariação de fundos, desenvolve e apoia programas de impacto social nas áreas da saúde, alimentação e apoio a estudantes, sempre com uma missão clara de inclusão, solidariedade e criação de pontes entre territórios e culturas.
Já a Beit el Baraka, organização independente, apolítica e não confessional, atua no Líbano com uma abordagem centrada na dignidade humana. Entre as suas principais áreas de intervenção estão a segurança alimentar, os cuidados de saúde, a educação, a reabilitação habitacional e os programas de capacitação e empregabilidade, procurando não apenas responder à urgência, mas criar condições reais de autonomia e reconstrução de vida.
Com lugares limitados, o jantar realiza-se em dois turnos, às 19h00 e às 21h00.
Reservar mesa terá um significado raro e muito concreto. Será sentar-se para jantar, sim, mas também para participar num gesto de proximidade com quem, do outro lado do Mediterrâneo, continua a viver dias difíceis.
Artigo por Carla Silva

