


Em Alfama, há portas que se abrem não apenas para um jantar, mas para um mergulho inteiro na alma de Lisboa. O Fama d’Alfama é uma dessas casas, restaurante e casa de fados na Rua do Terreiro do Trigo, assumidamente pensado para ser mais do que um restaurante, uma experiência em torno da música, da memória e da gastronomia.
No passado dia 27 de novembro, a casa assinalou o Dia Mundial do Fado com uma noite especial, “Ode a Amália Rodrigues”, homenagem à figura maior da canção portuguesa, mas também ao próprio fado enquanto arte viva. O palco encheu-se de nomes maiores da nova geração tais como Cristina Branco, Joana Amendoeira e Teresinha Landeiro, acompanhadas por Bernardo Couto na guitarra portuguesa, João Filipe na viola de fado e Ricardo Dias ao piano. A direcção artística esteve a cargo de Joana Amendoeira e de Tiago Torres da Silva, que levou a palco momentos de poesia e disponibilizou peças do espólio pessoal de Amália, expostas em exclusivo na casa. Já perto do final, a noite guardou ainda uma surpresa, Camané subiu ao palco sem anúncio prévio e ofereceu um momento intenso, arrancando aplausos e um entusiasmo sentido em toda a sala.
A sala, luminosa quanto baste e intimista quando as luzes baixam, organizou-se em torno do verbo “escutar”. Logo ao primeiro dedilhar de guitarra, fez-se o silêncio cúmplice que o fado exige. Em palco, as vozes foram desenhando diferentes maneiras de dizer Lisboa, mais intensa, mais contida, mais confessional ou mais teatral, num equilíbrio entre fados clássicos e temas menos óbvios. Entre cada atuação, percebiam-se murmúrios emocionados, copos de vinho pousados a meio gesto e alguns olhos brilhantes à media-luz da sala.
“Celebrar o Fado é celebrar a alma de Lisboa, e ninguém a representa melhor do que Amália Rodrigues. No Fama d’Alfama procuramos honrar esta herança todos os dias, mantendo viva a autenticidade e o espírito que fazem do fado uma arte única”, sublinha João Cardim, fundador da casa. Esta mensagem ganha corpo na programação diária e, agora, também numa galeria fotográfica permanente com os rostos dos artistas que têm dado voz e alma ao Fama, de Joana Amendoeira, Jonas, João Filipe, Maria da Nazaré, Mariana Lopes Correia, Nani Medeiros, Mário Pacheco, Beatriz Felício, João Nunes e Teresinha Landeiro.
À mesa, a celebração estendeu-se ao prato. A carta combina autenticidade e sofisticação, reinterpretando clássicos da cozinha portuguesa. Nas entradas, as espetadas de atum (€17), a sopa à antiga (€7), as amêijoas à Bulhão Pato (€20), os cogumelos à Bulhão Pato (€16) e os peixinhos da horta com molho sweet chili (€16) prometem abrir o apetite, enquanto a tábua mista de queijos e enchidos (€30) convida a partilhar e a prolongar a conversa.

Entre as especialidades da casa surgem o polvo em tempura com puré de batata-doce e salada de agrião (€28), o camarão tigre na manteiga de ervas (€28), os lagartos de porco preto com batata-doce frita (€27), o rabo de boi estufado (€30) e os cogumelos recheados com mousse de queijo de cabra e salada trufada (€26). No fim, a doçura chega na forma de quindim com framboesa e menta (€8), pudim Abade de Priscos (€8) ou cheesecake de frutos vermelhos (€8).
Quando a última nota se desfez, Alfama continuava viva lá fora, mas quem saiu do Fama d’Alfama levava outra luz, a sensação de ter vivido, num só espaço, a Lisboa que se ouve, se prova e se sente. Mais do que uma noite dedicada a Amália, foi uma afirmação do próprio fado, das casas que o guardam, das vozes que o arriscam, dos músicos que o sustentam e de um público que se dispõe a escutar em silêncio.
Artigo por Carla Silva

